O juiz, Marcelo Carneval, em sua mesa de trabalho “Se eu começasse a agradecer a Deus hoje, até o final da minha vida, eu não iria con...

De menino pobre a juiz: uma trajetória de lutas pela realização de um sonho

By | quarta-feira, outubro 23, 2013
O juiz, Marcelo Carneval, em sua mesa de trabalho

“Se eu começasse a agradecer a Deus hoje, até o final da minha vida, eu não iria conseguir agradecer tudo que Ele fez”, essas são as primeiras palavras emocionadas de Marcelo Carneval um dos mais novos juízes do estado do Paraná. Ele que estudou direito em Dourados, contou um pouco de sua história ao Dourados News.
Eduarda Rosa
Nascido em uma família humilde, passou necessidades, estudou, conseguiu vencer e hoje sua superação serve de inspiração.

Tudo começou em um sítio na cidade de Irapuru, no interior de São Paulo, seus pais, Maria e Osvaldo Carneval, tinham o sonho de ter um filho, mas durante anos não conseguiram, até que um dia Maria descobriu que estava grávida, nascendo o pequeno Marcelo.
A alegria chegou ao humilde lar e mesmo sem condições financeiras favoráveis o filho único, cresceu e foi incentivado a estudar. “Meus pais sempre destacaram que o sucesso só viria com o estudo e seria a única forma de conseguir algo na vida. A minha herança é o que eles passaram para mim. Eu olho meus pais e vejo exemplo de honestidade e caráter, isto representa muito para mim!”, conta Marcelo.
Marcelo com sua avó Helena, mãe Maria e pai Osvaldo na posse de juiz.
O menino ajudava os pais no pequeno sítio nas produções de café, feijão e maracujá, mas sempre conciliando com os estudos. Estes, iniciados em uma escolinha de primeira a quarta série, que tinha apenas uma sala e que cada fileira era a turma de uma série. Já da quinta a oitava série pegava ônibus todos os dias para ir até a cidade mais próxima para estudar na escola Professor Edson Moisés, onde ficou até o final do ensino fundamental.
No final deste período surgiu a oportunidade de fazer uma prova em colégio particular da cidade vizinha, Junqueirópolis. Marcelo conta que não queria fazer a prova, pois ia concorrer com pessoas que já estudavam lá e de outras escolas particulares, mas sua mãe insistiu e ele a obedeceu. “Acho que foi a única vez que eu contei com a sorte, porque como eu estudava em escola pública, cheguei lá e muita coisa eu não sabia, chutei quase tudo, e no meio da semana seguinte fiquei sabendo que eu tinha sido o primeiro colocado. Mais de 100 pessoas fizeram esta prova e eu fui o primeiro colocado, não esperava! Eu falei ‘não pode ser, como que eu passei?’”, recordou.
A bolsa de estudos era só para o primeiro ano do ensino médio, mas a escola viu sua situação e no final do ano o diretor o chamou e falou que a escola iria assumir seus estudos e ele não iria pagar nada. “Foi neste período que nasceu a expectativa de fazer um curso superior, porque até então eu não tinha perspectiva, vários colegas, também de família pobre, terminavam o ensino médio e ficavam por ali, optavam pela agricultura ou emprego em supermercado e eu não queria aquilo para mim”, disse Carneval.
Ele conta que quando foi para a escola particular sofreu um pouco, pois assim como todos os adolescentes, também queria participar dos eventos que a escola realizava, mas como não tinha condições de pagar o convite e ter uma roupa nova, quase nunca participava. Porém durante os três anos de estudo nasceu o desejo de fazer a faculdade de direito.
“Recordo que iniciei no ensino médio no ano de 2000 e logo em fevereiro, no primeiro dia de aula, o professor passou uma folha para que todos colocassem a pretensão de qual curso superior tínhamos interesse e a profissão, e nesse dia eu coloquei direito, não sei por que, e na profissão coloquei juiz. Isso em 2000, há 12 anos atrás, e eu tinha acabado de fazer 15 anos de idade. Lembro-me como hoje, na hora eu até pensei direito ou administração? (risos) – aí coloquei direito e juiz, e passei a folha.”
 
O magistrado, após a posse
Mesmo inconscientemente, o destino do menino pobre já estava traçado, contudo muitas etapas ainda precisavam ser superadas. No terceiro ano do ensino médio ele fez vários vestibulares, na Unesp, na USP e no interior do Paraná, mas certo dia um professor disse que havia feito seu curso numa cidade do Mato Grosso do Sul, chamada Dourados, na UFMS. “Então o professor Jorge me falou que em Dourados havia curso de direito na Universidade Federal e na Universidade Estadual, só que na universidade federal foi no mesmo dia da prova da Unesp e eu não queria perder, porque a minha intenção era a Unesp, mas não fui classificado, ainda bem! (risos)”, disse Marcelo.
No final de 2002, Marcelo foi até Nova Andradina e fez a prova para a Uems (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), e dias depois soube que havia passado em 14º, para cursar Direito. Então veio morar em Dourados, em janeiro de 2003. Foi recebido por um amigo do professor Jorge, o pastor Elias Aragão que o abrigou por alguns dias em sua casa, depois passou alguns dias em um quarto na Faculdade Teológica Batista Ana Wollerman, pois só depois de um mês seus pais se mudaram para Dourados. Lembra que este intervalo de tempo, que os seus pais não estavam na cidade, foi um período difícil, “o dinheiro que eu trouxe foi pouco e aí aluguei uma casa, onde fiquei sozinho, então tinha dia que eu comprava marmitex, mas tinha dia que não tinha dinheiro, então eu passava com um pão e tomava tubaína, assim foram os 20 dias até os meus pais conseguirem se mudar para cá”, disse o juiz.
Seus pais venderam a propriedade que tinham e deixaram uma lavoura inteira para acompanhá-lo, acreditando em seu sonho e determinação.
No início começou a estudar e não trabalhava, no final de 2003 conseguiu um estágio voluntário na Justiça Federal, onde aprendeu muito. No final de 2003 fez um concurso para vigilante do município e em agosto de 2004 foi chamado para trabalhar, contudo continuou o estágio. “Eu chegava da faculdade por volta de 12h, almoçava rápido e saia de bicicleta, andava uns cinco quilômetros até a Justiça Federal, já levava a marmita para jantar. Terminava o estágio e já ia direto para a vigilância sanitária, onde trabalhava como vigilante e ficava até meia noite, daí meia noite eu pega a bicicleta ia para casa, chegava meia noite meia, ia dormir uma hora e acordava 5h30, tomava o ônibus às 6h para ir para a faculdade”, lembrou-se de como era sua rotina.
Nos oito meses que trabalhou na prefeitura, principalmente nos finais de semana, pensava que poderia estar em outro lugar ou em uma festa, mas tinha que ficar de plantão a noite toda e foi aí que nasceu a vontade de fazer outro concurso.
Marcelo com sua esposa Maria, após a posse na magistratura
Nesta época abriu o concurso do Instituto Nacional do Seguro Social e do Tribunal de Justiça, Marcelo queria o do Tribunal de Justiça, pois já conhecia a rotina interna por conta de seu estágio, mas a prova foi adiada e ele pagou a inscrição para o concurso do INSS no último dia, faltando poucos minutos para acabar o prazo, “durante um mês, aproveitei o tempo que ficava na vigilância e estudei de oito a dez horas por dia”, recorda.
A surpresa veio no dia 17 de fevereiro de 2005, quando Marcelo viu o resultado do concurso e havia passado em primeiro lugar, “a alegria foi muito grande, porque minha remuneração na prefeitura era de R$ 340 e o primeiro salário do INSS foi de R$ 1.100, eu tinha apenas 20 anos na época, então eu fiquei muito feliz!”.
E em seis de abril do mesmo ano tomou posse e começou a trabalhar na Gerência Executiva do INSS de Dourados, “no início foi difícil, muito trabalho, mas depois contei com pessoas que me ajudaram e eu consegui desenvolver o trabalho lá, acho que dentro do esperado”.
No final de 2006 foram chamadas mais pessoas do mesmo concurso que ele havia feito, entre eles Maria, o romance estava no ar, porém ela foi trabalhar na agência de Mundo Novo. “Eu liguei para ela depois do treinamento, chamei para comer uma pizza, mas ela não aceitou. Depois de alguns dias liguei de novo, aí a gente saiu, começamos a namorar em dois de novembro de 2006, ficamos noivos no dia 30 de setembro de 2007 e nos casamos no dia 17 de maio de 2008”.
Um reforço da faculdade foram os cursinhos preparatórios para concurso que Marcelo iniciou em 2006, se preparando para o concurso de delegado Paraná. Neste concurso passou em todas as fases, colou grau na faculdade por meio de uma ação judicial e emagreceu 17 quilos. “Foi uma época bem sofrida e no dia 10 de janeiro de 2008 foi uma decepção muito grande, porque fui fazer a prova física, senti que estava preparado, emagreci, fiz de tudo, aí cheguei lá e reprovei, então o abalo foi muito grande. Reprovei, ai falei ‘Meu Deus e agora eu reprovei, estava tão próximo, 17º para 44 vagas’, depois da reprovação fiquei uns dois meses bem chateado, nem estudei neste período”, lembrou.
Em seguida fez o concurso em Mato Grosso do Sul, fez todas as fases “falei: ‘ah aqui vai ser tranquilo eu vou passar’, treinei, e uma semana antes da prova física foi anulado o concurso desde a prova discursiva, então o concurso teve que ser refeito. Fiz a prova discursiva e passei, mas depois desisti porque tinha consciência de que não era aquilo que eu queria, pois Deus já havia me mostrado por duas vezes isso, o que aconteceu não foi por acaso, acho que Ele tem algo melhor para minha vida, então decidi desistir do concurso!”
Marcelo lembra que se arrependeu, e muitas vezes se pegou em casa, cansado de estudar, e falava “meu Deus, ‘se eu tivesse continuado naquele concurso de delegado, hoje eu não precisaria estar estudando tanto, porque que eu desisti?’... Pensei isso várias vezes, mas hoje eu vejo que isso foi uma decisão correta, porque Deus concedeu algo maior para minha vida, só tenho que agradecer”.
Após essa fase Marcelo decidiu estudar para o concurso de juiz e os anos de 2010 e 2011 foram decisivos em sua trajetória. Fez um cronograma de estudo e uma projeção que até o final de 2014 iria passar num concurso, “era uma coisa à longo prazo, fiz uma distribuição de matérias, porque tinha que conciliar com o trabalho, também com os meus pais, e aí meu estudo foi de no mínimo 6 horas por dia”.
Em 2011 fez o concurso para a magistratura em São Paulo, não passou para segunda fase, mas ficou por apenas uma questão. Aí viu que estava indo no caminho certo, já que a prova de São Paulo é uma das mais difíceis do Brasil. Também prestou em Brasília e no Paraná, passou para a segunda fase nos dois, mas no Paraná foi melhor, “pelo fato de ter reprovado no Paraná, no concurso para delegado, eu queria muito passar lá, então foi dando tudo certo, Deus foi abrindo os caminhos e aí nesta reta final de preparação para a prova oral eu tirei férias e estudei 12 horas por dia”, contou.
A última fase do concurso de magistratura era a prova oral, que foi um momento de tensão, expectativa e nervosismo. Quando chegou a data foi para Curitiba, onde 13 desembargadores o questionaram, “antes de entrar para fazer a prova pensei “eu já vim aqui em Curitiba e perdi uma batalha, quando reprovei no concurso de delegado, eu sei que não era o momento, Deus direcionou a minha vida, mas agora eu vim aqui e não vim para perder, eu sei que eu tenho a proteção de Deus e vim para ganhar!. Eu pensei na minha história, na minha vida sofrida, falei ‘ah eu vou e vou deixar de lado o nervosismo, a timidez, vou entrar e enfrentar a banca’. E foi isso que fiz, cheguei e acho que fui bem, quando terminou a prova senti um alívio muito grande!”, lembrou.
De 6.079 candidatos na primeira fase, restaram 60 na última e Marcelo passou na 38º posição. Contente, ele disse que os dois dias mais felizes de sua vida foram na mesma data, 17 de maio, “o primeiro foi meu casamento em 17 de maio de 2008 e a posse 17 de maio de 2012, então comemoramos o aniversário de casamento com esse evento brilhante!”.
Carneval tem a intenção de ser um juiz diferente “por ter vindo de uma família humilde, meu desejo é fazer muito pelas pessoas nesta função, principalmente pelas pessoas carentes. Acho que o principal do juiz é enxergar o que está por trás do processo, não lidar só com o papel, mas ver que ali tem uma vida”.
“Não imaginava, que uma pessoa nascida na pobreza e com apenas 27 anos iria alcançar a posição da magistratura. Então Deus foi essencial em minha caminhada!”, disse, com grande sorriso, um dos mais novos magistrados do país. Marcelo se mudou recentemente para uma cidade do interior do Paraná, onde assumiu o cargo de juiz substituto.
Foto oficial dos juízes empossados

RECEITA PARA PASSAR EM CONCURSO

“Já me falaram ‘ah você é muito inteligente’, mas eu não acredito nisso, Deus deu capacidade para todos. Eu acho que o que diferencia uma pessoa da outra é o comprometimento, dedicação, renúncia, esforço e sacrifício se não, não se consegue nada”.
Marcelo fez um cronograma de estudo e tentou estudar dentro da meta traçada. Ele destacou que o essencial é a persistência e a dedicação, é não desistir e renunciar. Ressaltou que o concurso público está cada vez mais difícil, com nível mais elevado, mas não é impossível, basta ter disciplina e força de vontade, “além de buscar a proteção de Deus, é preciso ter muita fé em si, porque se o candidato ficar‘ah eu não sei se eu passo, eu não sei se eu consigo’, ele não vai conseguir! A primeira coisa que ele tem que falar é ‘eu sou capaz, eu vou fazer’ e ir em frente, acho que é a primeira coisa. Então, a receita não é tão fácil de ser seguida, pois o básico é ter confiança, fé em Deus, renunciar muita coisa, dedicação e não desanimar!”.
“Sorte? Se existem pessoas que acham que concurso público é sorte é porque elas não sentem na pele, por que não tem nada de sorte, é muito esforço! A luta e o sacrifício são grandes... A sorte... é quase irrelevante!”, ressalta.

Novos juízes na cerimônia de posseFONTE: Dourados NEWS
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