11.04.2017

Primeiros meses na advocacia: Um breve relato

Advogado
Harvey Specter (imagem: Foto/USA network)


Olá, jusamigos(as)! Com esse texto de hoje (re)inauguro a coluna diário de um oabeiro. 

Agora não como candidato, mas sim como profissional no exercício da advocacia.

Hoje quero fazer um breve resumo sobre as impressões dos meus primeiros meses como jovem causídico. 

Vamos lá? Senta que lá vem textão.


1. Por que a advocacia?

Quem me conhece sabe que meu objetivo profissional desemboca em dois destinos: Magistratura e Docência em nível superior. O exercício da advocacia veio como forma de angariar experiência para a preparação do caminho de um desses destinos.

Para que eu possa prestar concurso da magistratura, tenho que necessariamente possuir no mínimo 03 (três) anos de exercício de atividade jurídica. Não precisaria ser exatamente na advocacia, poderia preencher com qualquer profissão que possa ser exercida como bacharel.

Caso tenha dúvidas sobre como contar os anos de atividade jurídica, leia esse excelente texto do Edilson Vitorelli sobre o assunto.

Escolhi a advocacia por dois motivos: O primeiro e mais óbvio é que era a profissão que eu já tinha garantido na faculdade. Logo, já poderia contar desde já os anos de prática a partir da inscrição nos quadros da ordem. 

O segundo motivo é a independência que a advocacia me concede para que eu possa desenvolver meus outros projetos (blog, redes sociais, estudos para mestrado, concursos públicos etc). 

Eu trabalho na hora que quiser. Não tenho que cumprir horário de ninguém, eu que faço meu próprio horário e isso é ótimo.

Além disso, a experiência prática tem me concedido mais maturidade. Sem contar o fato de poder ajudar a efetivar o direito na vida real. Tenho dado preferência às causas de pessoas carentes e conhecidos próximos. A experiência tem sido muito boa.

Voltando ao tema, para adquirir a prática na condição de advogado é preciso atuar em 05 (cinco) causas anuais. Felizmente em meses consegui muito mais do que o necessário. 

E a demanda não para de aumentar, mas vou dosando conforme minha disponibilidade, já que no momento minha atenção está voltada ao estudo para o mestrado e, subsidiariamente, a um lento processo de estudo intenso a longo prazo. 

2. Retorno financeiro

Apesar de ter sido aprovado no XIX exame, isso lá no primeiro semestre de 2016, quando estava no 9º semestre da faculdade, só fiz meu registro nos quadros da ordem em agosto/setembro de 2017, com pouco mais de seis meses de formado.

Dediquei os primeiros meses de 2017 para revisar matérias urgentes que eu necessitava de dedicação exclusiva. Como exemplo posso citar português e direito tributário. 

A última vez que eu havia estudado nosso idioma eu estava no ensino médio, isso lá em 2011. Não sabia nem o que era voz passiva, conjunção conformativa, adversativa, essas coisas de gramática que a gente esquece se não estiver em contato constante.

Acredito não ser necessário destacar o tamanho da importância que o domínio do vernáculo tem em nosso desempenho como juristas, não é mesmo? 😊

Dito isso, no momento em que escrevo esse texto, não tenho nem seis meses de advocacia. A parte financeira nesses primeiros meses é bem complicada, pois acabamos gastando mais do que recebemos. Precisamos investir em vestuário, custas para a inscrição na ordem, custas para tirar um certificado digital, custas para o token e lá vai.

No começo mais investimos do que lucramos, mas vale a pena. O retorno financeiro vem com o tempo. Não ficamos milionários quando pegamos nossa carteira vermelha. 

É preciso todo um investimento prévio. Especialmente se você deseja consolidar seu nome no ramo, que não é o meu caso. Ao menos por enquanto.

3. Impacto nos estudos

Ah, meus amigos! Esse com certeza é o ponto mais tenso dessa história toda. Engana-se quem pensar que o estudo para o exercício da advocacia termina com a aprovação nas duas fases do exame da OAB.

Ali, na verdade, é apenas o começo. Só o começo.

Advogado estuda e estuda pra dedéu. Cada caso possui uma particularidade, uma nuance que precisa ser estudada, analisada, pormenorizada com o objetivo de encontrar uma melhor solução. E isso demanda tempo.

Disso eu sabia e acredito que muitos de vocês que estão lendo aqui também. A questão é que eu não sabia que era tanto assim. Por conta disso eu até sai do escritório que estava assim que tirei minha OAB. 

A demanda era maior do que eu podia suportar. Não que não fosse possível dar conta, mas para isso eu teria que pagar o preço de colocar meus planos em segundo plano. Ai não tive outra saída. Estou em carreira solo no momento.

Em algumas situações eu não tinha tempo mais para nada que não fosse estudar os casos. Quando eu entro num caso não consigo fazer outra coisa enquanto ele estiver pendente. 

O início dos trabalhos como advogado me impediu de estudar como eu vinha estudando desde o começo do ano. Até agora estou tentando colocar as coisas em seus devidos lugares. Aos poucos estou ajeitando.

O impacto nos estudos é enorme. Você precisa ter muita disciplina para aguentar. E isso você só adquire vivendo. As vezes você só consegue estudar uma hora devido ao dia ter sido corrido. Outro dia consegue 6 e assim vai. Só não pode parar.

4. O fantasma do mercado saturado

É inegável que temos muitos advogados atuantes no mercado. A questão é que isso deveria ser mais um motivo de irmos atrás de qualificação e destaque do que nos acomodarmos na zona de conforto e achar que é isso mesmo e pronto.

É claro que o começo nunca é fácil, mas há diversas formas de complicá-lo ainda mais. 

Muito me impressiona alguém que a única experiência que tem é em fazer prova da OAB reclamar do mercado. Desconhece até mesmo o que vem a ser pje

Não fez estágio em escritório, não fez estágio em órgão algum, não participou de eventos jurídicos para se atualizar e manter-se atento às novidades jurídicas, não foi atrás de qualificação que não a nota da prova da faculdade e acha que o mercado vai recebê-lo (a) de braços abertos. 

Pedir domínio de um segundo idioma? Nossa, para alguns soa até ofensivo.

Não, não vai. Se está difícil pra quem tem boa qualificação, imagine pra quem nem isso tem. É preciso ser realista. Advocacia é atividade empreendedora. Ou você pensa fora da caixinha ou será mais um em meio à multidão. 

Pesquise oportunidades de emprego para advogados em sites especializados como o linkedin (olha a dica! Não tem perfil no linkedin? O que está esperando pra criar? Corra!) e veja em que pé as firmas consolidadas estão em nível de exigência. 

O salário é diretamente proporcional. Mas, em vez de procurar atingir um bom nível de excelência, muitos preferem reclamar. Afinal, para reclamar não precisamos sair de nossa zona de conforto.

Procure ser alguém qualificado(a). Veja o que os grandes escritórios procuram. Tenha uma noção mínima do patamar de excelência que o mercado exige. Se você pagar o preço, receberá a recompensa na mesma intensidade. E não é só de dinheiro que estou falando. 

Vá além do óbvio - carteira e diploma da faculdade. Pergunte-se: O que eu faço para alguém me contratar e não qualquer um que também tenha registro na ordem? O que me faz diferente daqueles que se acomodam em dizer que o mercado está saturado e ficam por isso mesmo? Quem é bom em dar desculpas costuma não ser bom em mais nada.

5. O problema de defender quem está "errado"

O tempo todo somos postos em xeque quanto aos nossos preceitos morais e éticos. 

Especialmente diante de casos em que o senso comum infere que estamos diante de pessoas erradas, quais sejam, aquelas que praticaram algum ato em desconformidade com os padrões de conduta social. 

Entenda que advogado não defende o crime ou o ato ilícito, ele defende a correta aplicação do direito. Se o cliente matou, que pague pelo que fez, mas estritamente dentro dos limites legais, nada mais, nada menos. Se comprovadamente praticou algum crime contra os cofres públicos, que seja punido, mas sempre dentro da lei, conforme o devido processo legal. 

Se não usarmos da lei para corrigir os erros, qual legitimidade teremos para chamarmos alguém de criminoso? O que é criminoso? Se for aquele que descumpre a lei e nós a descumprimos quando não a aplicamos corretamente, seremos (Estado-juiz, sociedade) tão criminosos quanto. Ao Advogado cabe a responsabilidade de não permitir que isso aconteça. 

Muitos não irão entender, o que é compreensível. Somos um País subdesenvolvido que tem muito a crescer em termos de democracia e garantias. O problema é quando isso parte dos próprios advogados. E esse fenômeno não é raro de acontecer, infelizmente. 

É preciso que reafirmemos nosso papel como indispensáveis à administração da justiça, como determina nossa Constituição Federal. A nós cabe a função de sermos os primeiros a dar o exemplo, pois muitas vezes somos a primeira etapa do acesso à justiça para os cidadãos. 

Confesso que essa parte é a segunda mais tensa no exercício da advocacia. É preciso de muita reflexão e franqueza consigo mesmo. Advogar é um exercício simultâneo da filosofia, psicologia e capacidade de análise. Não é fácil conjugá-las, mas se não tentarmos nunca iremos conseguir.

O texto ficou muito longo. Em breve falarei mais acerca da temática. Obrigado pela companhia e vamos juntos.

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